Textos,
Poemas e Críticas

NA CASA DA CRIAÇÃO:
VERA SABINO
Carmen L. Fossari
No alto do morro
Um verde plantado
Pequeno oásis
Clorofila
No desmatado espaço
Circundante
Miragem
Imagem
Um portão grande também verde
Ao muro de tijolos aparentes
É aberto
Tudo é chacra
Foz do rio nascente
Matérias que se transmutam
Bromélias me saltam a vista
Vidros em suas transparências
Revelam vários pisos
Uma casa que não tem fim penso.
Há ainda obras sendo feitas
Tijolos e argamassa
A casa como a pintura
Que realiza
De não ter fim,assim o são.
Movimento de seus seres
Que a habitam.
Horta, flores, e objetos
Muitos.
Tantos que se agrupam
Móveis antigos imponentes
São delicatessens de culturas diversas
Cimentando viagens ao mundo das
Recordações.
O pequeno oratório ao canto
Repleto de santos de cerâmica
Acima os santos grandes
Uma santaria reunida
Como pássaros
E logo um e outro armário
Madeiras formatadas
De centenário feitio
Sob suas prateleiras os objetos
Tão femininos a ornarem
Porcelanas,biscuits,e dedais
Miniaturas.
Bordadas as recordações
Nas esculturas do tempo
Que ali não ousa valsar
Apenas ele , o tempo
Penetra silencioso nas
Conchas ,o mar em representação
Alí traz as marés de espumas
Algas,tudo é oceano
Que navegam nossas mentes
De olhar em pouso sobre
Sua morada.
E ainda as paredes repletas de
arte
Não só dela, a Vera de alma Sabina
Que gera estes mundos incrustados
Paralelos ao seu impar mundo
O mundo da criação pictórica.
Deixa em suas paredes
Tantas obras
Ao lado de seu santuário
Das tintas e desenhos que ali são plasmados
As telas do companheiro
O Semy Braga
Também pintor, também poeta,também
Que o amor sabe o segredo
Dos verdadeiros encontros.
Lá na casa ao alto do morro
Avistamos a Ilha de concreto
Vertical, se travestindo ao modernismo
Impensado
Meu olhar sofre o impacto
Olhar fora a cidade de pedra
e sentir meus pés
Tocando ao solo onde tudo se reparte luz.
Vejo pinturas de Semy Braga,Pléticos,Sueli
Beduschi
Vejo tapeçaria do Vichetti , que lhe foi amigo, desenhos
Do Beck,Fossari, tantas obras
Tudo em arte está ali plantado.
E há ainda a praça
com o nome paterno
Que ela homenageia assim seu grande incentivador
O pai que foi mas está ao coração .
Penso, aqui tem a atmosfera da
casa de Neruda
em Isla Negra
Lá onde não é Ilha, é Pacífico.oceano
bravio
Aqui onde é Ilha,Atlântico,com recortes de calmarias
Confessa Vera, que visitou as casas de Neruda
em Santiago e teve a mesma sensação
Identidade.
II
As paredes da casa
Confluem em uma galeria
Galeria casa
Casa voadora
Como um pássaro que reúne todas as almas por milênios.
Ao segundo andar,
subindo por uma escada
de balaústres torneados em madeira
chegamos ao patamar .
Sim, inverto o sentido
Ao segundo, o patamar
Pois ali o espaço onde pinta.
Os desenhos?
Leva consigo antes de dormir,
Desenhar, a cama acostumou-se
Ao hábito
Talvez para sonhar suas cores.
No ateliê ,pés ao
chão, pernas entrecruzadas
corpo que se projeta
posição fetal.
Três são os filhos gerados:
Bruno, Jorge e Marco
E de seus filhos já os filhos:
Yasmim e Gabriel.
Da artista herdaram a sina
Dos gerados em “Casas da Criação”
São os códigos secretos , impalpáveis
Que caminham desde a infância
Ao inconsciente e ali bordam
As tatuagens do ser.
Vez e outra são
Tingidos de caminharem
Por entre telas e cores.
Têm, na palma da mão,
O Imaginário
E vêem a diário
Ser o mundo repaginado
na nova tela
Que acaba de nascer.
Assim de corpo a proteger o útero
da criação
Postada ao chão,
Nasce fértil , vivaz
A feminina arte de VERA SABINO.
Não há fronteiras
entre o ser e o estar
que não esteja tatuado das entranhas do olhar
que vê o além.
Rara sensação,Vera
conversa,e com panos
brancos em camadas diversas
volteia a tela,esfumaçando as tintas
agregando camadas,contornos,cores
que mistura de primárias, obtendo tons tão próprios
e ali ao útero da criação é capaz de gestar
outros seres, santos, mulheres da ilha.
Predomina a figura feminina
Seria ela mesma a Vera
A modelo observadora,e observada
postada na maioria de suas telas?
Penso na Arte Bizantina,
figuras femininas(em sua maioria) de mantos
Olhares fixos que nos acompanham
As imagens de seus quadros têm este olhar fixo
E atentamente percebemos que dentro dos
Olhos, há outro olhar
Assim uma unidade
Formada na duplicidade de efeitos
Revelando infinitudes.
Que sua arte vem desde sempre
delicada e forte, detalhes, a ilha, peixes
flores, bromélias,pássaros, janelas, luas
cortinas, rendas, tudo se plasma
voltam os santos, via crucis, vasos.
Olho as telas,não as quero
ver
Apenas escutar o que me dizem
Do tempo, do vento
Do ventre da criação
Este mundo que vive dentro
De seu ser, é habitado por 3.000
Anos de almas,
Que plasmam a vida plena
As cores vivas, púrpura, vermelha
Liláses etéreos, oníricos.
Verdes e azuis tonais, brancos de recortes
Como filetes de lua
Lua nua que adentra aos poros
E liberta ao vôo
Arco-íris e Auroras boreais
Sob açorianas formas
Tracejam o caminho do infinito
Na obra de Vera Sabino.
ilha VI de II DE MMVIII C.F.
Carmen L. Fossari

OLHARES
Mirian de Carvalho
Para Vera Sabino
Antes que à rua chegassem os anjos, a lâmpada
os contemplou. Antes que a morte chegasse à
casa, sob a fala do olhar arderam desejos do
lânguido peixe reproduzindo as espécies. E à
onipresente contemplação da véspera, eriçaram-
se as escamas dos dragões de incontidas
chamas registrando as horas nos olhos dos
bichos.
Não era cedo. Nem tarde.
Olhares escalando o dia.
Aos olhos da mulher a antecipar a festa de
domingo, nasceram videntes caules e
plumas, sorvendo as cores rubras da romã.
Varrendo a lua, flamejava o sortilégio dos olhos
da vassoura encantada. E varrendo os pecados
do mundo, o rosário de contas acendia a
lamparina ao santo de devoção.
Nesse tempo, a janela atravessou a luz
para inseminar os olhos da fêmea.
Nesse lugar, ante as mutações da fábula o
escorpião se cansou do veneno.
E, amoroso, na taça dos anjos ele
bebeu o leite das flores de um rio
antigo.
Muito muito antigo.

INTERPRETAÇÃO
PICTÓRICO-POÉTICA DE SUBSTRATO FANTÁSTICO
A
pintura figurativa de Vera Sabino se insere nos domínios do imaginário
fantástico, percebendo-se ressonâncias do código
mítico-mágico de Hyeronimus Bosch, do maneirismo culto
de Giuseppe Arcimboldi (a paisagem antropomórfica e a vocação
alegórica dirigida à elegância do adorno) e da tensão
onírica, dramática, naturalista e romântica de Henri
Rousseau, sem que, a rigor, constituam influências decisivas devido
à originalidade exemplar de sua criação, vinculada,
historicamente, à outra ambiência e técnica do fazer
artístico. Não obstante a característica do tônus
original, é imantada pela fértil atmosfera da tradição
(bizantina/medieval/renascentista/açoriana), cuja presença
insiste em permanecer, inclusive quando revela traços da art
nouveau de forma contida.
Daí o equívoco de alguns exegetas que, sem razão,
em seu repertório vislumbram surrealismo (quando há, apenas,
simbolismo de extração inconsciente) ou expressionismo
(confundindo-o com elementos e objetos expressivos), desconhecendo ser
diversa a vertente do estilo. Este, na verdade, conflui do requintado
disegno fantastico de viés metafórico para possibilitar
a cerebral construção de imagens de múltiplo sentido,
à margem da mera translatio e do traço artificial.
Toda essa fascinante complexidade também se encontra nas 15 pinturas
da artista, criada a partir de poemas de 15 poetas catarinenses e musicadas
pelo virtuose Alberto Heller.
Verifica-se, nelas, o recorrente bestiário do reino animal (criaturas
da terra, da água e do ar), a preciosa decantação
do esplendor da flora opulenta, a aura do cenário hagiográfico
e celeste (anjos, estrelas), ressaltando-se, no entanto, a andrógina
e dionisíaca máscara frontal, hierática e heráldica
de uma jovem mulher (ou madona), com cabelos às vezes medusianos,
num plano táctil de circularidade mandálica, comparecendo
em todas as peças como personagem central, de olhar ora ambíguo
e otimista, ora melancólico e ingênuo, sempre encantador
e instigante, fundado na arquetípica lembrança do ancestral
e lúdico paraíso perdido da infância passada nesta
ilha de prodígios, sortilégios e transfigurações.
E tudo criou tendo os poemas como ponto de referência, sem se
comportar como ilustradora servil, transcendendo a linguagem da narração
enquanto tal e reinventando os mitos com humanidade e humildade, ciente
de que, no plástico processo das metamorfoses, prefigura enigmas
indecifráveis para os não iniciados nos temas do universo
oculto.
Péricles Prade
(Das associações brasileira e internacional dos críticos
de arte)

O Olhar de Vera Sabino
Lélia
Pereira da Silva Nunes
Olhar de doçura incomparável, a descobrir nuances de
magia e encantos, a recriar na linguagem plástica o real e adentrar
no imaginário insular, no tênue fio que conduz e ao mesmo
tempo separa o real do irreal.
Um olhar que vagueia sem pressa pela paisagem exuberante, repousa no
regaço nativo da mulher rendeira a entrelaçar fios e
a tecer vidas, no pescador a lançar a rede no mar azul de brancas
ondas rendilhadas.
Um olhar que se ilumina ante o tremular da bandeira do Divino, na sincronia
do secular ritual, dos códigos e símbolos a revivificar
na Florianópolis do Divino.
Um olhar pleno de religiosidade e fé na evocação
do rosário hagiográfico de suas madonas e santos.
Seu olhar cheio de graça brinca matreiro no olhar da mulher.
Gaivota a espiar e buscar rotas. Olhar cheio de sensualidade a adivinhar
o ondular do corpo na cumplicidade dos olhares que transparecem na
pungência pictórica.
Olhar de muitos tons e cores a dar vida às formas e figuras
resgatadas do imaginário mítico e fantástico da
Ilha de Santa Catarina.
Olhar que aproxima a natureza e o homem, a terra e o mar, o ser e o
estar na Ilha. A sinfonia do encontro da pintura onírica e lírica...
No mosaico de cores, luzes e formas a afirmação da sua
identidade. No olhar, o surreal da Ilha com suas tradições
e valores da cultura popular açoriana sobrevivente. A façanha
do olhar vincado nas raízes e nos caminhos telúricos
vivos na memória e no germinar da semente profícua, no
perpassar de gerações. Descortina imagens e lugares de
um jeito singular como o sussurro do vento Sul que chega como um amante
no bojo da paixão.
O pincel de Vera, artífice do fazer e do saber, navega livre,
compõe com Arte, refaz rotas, percorre mares e chega impregnado
de sal e maresia junto com a onda a beijar a areia da praia.
Vera Sabino acrescenta sempre. Desvenda a alma da Ilha e da gente.
Redescobre nossas histórias e geografias, unifica o espaço,
apaga o tempo e, então, regressamos ao ontem que fomos a ao
hoje que somos.
Ao atravessar este portal que é o nosso mar circundante e se aproximar
da gente de outras ilhas de lá dos Açores ou de cá, desta
ilha da magia, abençoada por Santa Catarina, traz na bagagem a beleza
de sua arte. Uma arte que surpreende pela força que imprime a cada imagem
moldada na mais pura temática do fascinante substrato açoriano,
presente no litoral catarinense e revelados no seu notável universo
cromático.
Sua arte encontra nas tradições de seu povo e sua ancestralidade
a fonte de sua inspiração. Ancorada nos valores culturais da
terra, do Sul do Brasil, desta Ilha de Santa Catarina, a criatura, a pintora,
a mulher Vera Sabino com dignidade e orgulho apresenta a sua identidade cultural – açoriana
de Santa Catarina, - a Décima Ilha.
A contribuição da pintura de Vera Sabino é inconteste
e se faz decisiva no panorama da arte contemporânea catarinense, com
reconhecida projeção nacional.
Agora, foi a vez dos açorianos conhecerem sua Arte. Imagens tão
suas como os sonhos partilhados e as raízes partidas há mais
de dois séculos. Significados fortes de pertencer ao lugar de partida
e chegada. Para Vera Sabino, de regresso a sua história de vida e de
arte.
A Direção Regional das Comunidades, da Presidência do Governo
Regional dos Açores, ao realizar a Semana Cultural do Brasil fortaleceu
laços históricos e culturais que unem os Açores e o Sul
do Brasil, fruto de uma mesma matriz civilizatória e, sobretudo, fez
pulsar no mesmo ritmo, sentimentos de comunidades irmãs, ainda que separadas
no tempo e no espaço.

O
Imaginário
da Ilha de Santa Catarina,
Na arte de Vera Sabino e Semy Braga
Acabo de encontrar a alma.
Demarcada – insular.
Lá
Pertinho da imaginação.
Nada igual
Um horizonte de águas
Desenhando a dança.
Semy Braga in: Jardim dos Aromas.
No olhar do imaginário, esta forma alongada que se aproxima,
languidamente, à costa continental do Brasil, no extremo sul
da América e do Atlântico, parecendo liberta da terra-mãe, é a
Ilha de Santa Catarina – a Ilha-Mulher, ali albergada e acariciada
pela imensidão do mar que a abraça num permanente e enamorado
diálogo.
Na geografia cultural da Ilha, no cenário cosmopolita e ao mesmo
tempo provinciano está Florianópolis a alma da Ilha de
Santa Catarina. Nos caminhos desenhados e percorridos por gerações
estão os escritores e os artistas como o casal ilhéu
o poeta e pintor Semy Braga e a pintora Vera Sabino. Marido e mulher.
Pena e pincel, lado a lado, numa sinfonia de encontros, de cumplicidade
de alma, derramam seu olhar e captam o mundo ilhéu na sua real
dimensão ou na dimensão do sonho, do realismo fantástico
que habita esta Ilha mítica, eternizando-o na prosa, na poesia,
na arte pictórica. Abrem as comportas da criação,
cristalizam esse universo no abraço das palavras, na intensa
linguagem plástica das formas e de um colorismo vívido
que aflora e faz vibrar os fervores da Ilha.
Quando se fala na presença do imaginário na literatura e nas
artes catarinenses contemporâneas, de imediato os dois nomes são
citados com admiração. Uma arte que navegou pelos Caminhos do
Mar e chegou ao porto açoriano de suas memórias ancestrais. Um
percurso reconhecido e respeitado no arquipélago açoriano onde
a sua criação artística foi amplamente divulgada, alvo
de inúmeras citações e matérias no Suplemento Atlântico
de Artes e Letras – SAAL, que circulava encartado na revista Saber Açores,
tendo à frente, como seu Coordenador, o escritor ensaísta e crítico
literário Vamberto Freitas, grande difusor e defensor da cultura açoriana
por todos os cantos e quadrantes. Infelizmente, há exactamente um ano
o SAAL deixou de ser editado privando-nos de um importante diálogo plural
que fluía entre as duas margens do Atlântico e da comunhão
de um vasto mundo de vivências do real ao imaginário que a cada
edição estampava em suas páginas traduzidas na criação
de nossos artistas como os catarinenses-ilhéus Semy Braga e Vera Sabino.
A produção poética e artística de Semy Braga (1947)
está impregnada pelo seu jeito franco de olhar a condição
humana, reafirmar tradições culturais e valores estéticos
gerados na Ilha-mater, perenizados, tecidos pela sensibilidade do poeta em
sua peregrinação por tantos caminhos do universo ilhéu,
habitado pelo fantástico, pelo pescador, pela rendeira, por figuras
folclóricas, por vozes de todos os cantos que se espraiam na sua poesia
e na sua pintura.
Ambas ressoam libertas, míticas e oníricas, comprometidas com
a beleza e a ética, expressas na filigrana delicada de cada poema, de
cada quadro. Sua pintura e sua poesia caminham juntas em sintonia. Estilo que
se identifica na temática, no rigor da criação, na tessitura
do poema e do quadro, provocando a mesma tensão, como um chamado à sua
fruição. Não é temerário afirmar que sua
pintura é poesia e sua poesia retrata imagem visual, uma por dentro
da outra ou vice-versa.
Semy aparece como artista plástico em 1967, em exposição
individual no Museu de Arte de Santa Catarina. Na poesia, estreia 1983 com
Despertar de um anjo azul, uma pequena edição, manuscrita, ilustrada
por ele em parceria com sua mulher, a pintora Vera Sabino, e pelos amigos artistas
Eli Heil e Vecchietti. Uma verdadeira preciosidade! Reaparece em 2004 com Esquina
do Luar. No ano de 2005 publica Madrugada Acesa. Tem prontos mais dois livros:
Jardim dos Aromas e Na Ilha Embruxada. Presente em inúmeras antologias,
inclusive nos Caminhos do Mar (2005), antologia, organizada pelos poetas Osmar
Pisani e Urbano Bettencourt, que celebrou o encontro de poetas açorianos
e catarinenses numa longa travessia de aproximação de mundos
apartados no tempo e no espaço, sendo de sua autoria o quadro Divino que ilustra a capa da referida obra.
Na pintura como no poema revela de forma concatenada os significados manifestos
e deixa fluir o latente na sugestão da cor, no palpitar do verso. Assim,
sua pintura se espalha por sua poesia e prosa, enquanto imagens visuais invadem
a literatura, se completam e compõem, flutuando entre a dimensão
do imaginário e da realidade: paisagens, alfaias, personagens todas
numa grande cabala como se cumprissem um fadário. Cenários armados
por mãos açorianas, seculares, na argamassa do forte, na atafona,
na roda do engenho, nos cruzeiros e igrejas, no canto das sereias, no feitiço
das bruxas.
Na pintura, a técnica pictórica corporifica no traçado
vibrante, etéreo, mágico, o uso despojado da cor. Nada é supérfluo.
Tudo se configura desde a composição surrealista da paisagem
bucólica ao mistério do cenário solitário, quase
nostálgico, visceral, repleto de saudade de um lugar seu, utópico,
outra ilha – na outra margem do Atlântico? Sim, o imaginário
ilhéu presente ou habilmente insinuado como num jogo de sedução,
na dialéctica dos tons quentes e frios, mas sempre a profundidade do
senso cromático explorado em todas as suas nuanças na composição
de sua paisagem feiticeira, de sua arte.
Poesia forte, linguagem expressiva, madura, respira emoção, provoca
devaneios, sonhos alados, mexendo com o imaginário, deixando fluir o
pensamento numa dança de pura magia, como o ondular enamorado do mar
em noites enluaradas, na sua Ilha embruxada de Santa Catarina por errâncias
infindáveis.
Quero queimar até o pavio
ouvir o canto da Lagoa
engolir a luz das madrugadas acesas
Quero
queimar até o pavio
andar no limite
errar, sangrar e repetir
Quero queimar até o pavio!
(In: Madrugada Acesa,2005:73)
A
poesia de Semy espelha o viver na sua Ilha – o território
físico e a sua própria insularidade – o espaço
simbólico que emerge de dentro de si (Às vezes/faço
poesia com o canivete./Vou esculpindo o poema/na minha carne. In: Jardim
dos Aromas) em imagens fulgurantes e nesta solidão criativa
extravasa o mítico, o imaginário fantástico, iluminando
o fazer poético, levando-nos a saborear palavras, sílabas,
musicalidade, ritmo, sentimentos, imagens do presente, outras deixadas
para trás no arquivo colectivo da memória de nossa gente
que ele insiste em salvaguardar:
Sobre a pequena mesa de granito
O bule esmaltado reflete-se,
multiplica!
Fumegante,exala segredos
Guardados no tempo.
Bule Azul, in: Esquina do Luar,2004:61
A
imensa carga de crenças, superstições, fabulário,
estórias bruxólicas contidas no quotidiano, parte significativa
do acervo espiritual ilhéu, inspira sua poesia e sua pintura.
Além, é claro, de falar do legado cultural açoriano
ilhéu, no registro apaixonado de imagens d’além
mar ao encontro de suas raízes nascidas em meio às rochas
vulcânicas, como a videira que brota nas fissuras da pedra negra
lá na Ilha do Pico, e ali sentir a humidade das lhas, o soprar
dos ventos nas faias, descansar o olhar no azul das hortênsias
ouvindo ao longe o som mágico da viola da terra. Raízes
reencontradas e alimentadas no deambular do poeta e do pintor.
Da pequena alcova
recendendo a faia
vaza sem parar
oceano de saudade
Mãos delicadas
tecem lentamente, rendando a face
Como se na ponta do fino fio
estivesse o amor.
(in: Madrugada Acesa,2005:105)
Sua
obra artística e sua poesia revelam o amor do poeta e do
pintor em suas andanças pela Ilha de Santa Catarina de tantas
vivências, histórias e imagens partilhadas. Imaginário
do pintor, imaginário do poeta alçando voos de puro encantamento
no tempo e no espaço por sua Ilha de Santa Catarina e por outras
Ilhas de afectos fecundos.
Te encontrei
Flutuando no horizonte
Como se o destino
Estivesse escondido logo ali
Pertinho da imaginação.
(In: Madrugada Acesa, 2005:31)
Vera Sabino (1949), há mais de trinta anos é um dos ícones
das artes plásticas contemporâneas e uma das mais notáveis
pintoras catarinenses. Define-se autodidacta, defino “esplêndida”.
Tem uma pintura madura moldada num mundo figurativo de muitos tons e cores.
Uma fascinante unidade formal, um repertório de historicidade e de tradições
alicerçadas no substrato açoriano sobrevivente no litoral catarinense,
onde a plenitude do olhar debruça-se sobre a efervescência do
seu imaginário e do imaginário ilhéu. Um olhar doce que
deixa aflorar certo apaziguamento interior em justaposição com
um olhar de guerreira, de energia pura, de esperança, de crença
e de luta pelos valores essenciais da sua terra, do mar que a rodeia, da vida
que levita no vendaval de mudanças que assola a sua Ilha, abençoada
por Santa Catarina de Alexandria, que tanto ama e defende.
O primeiro prémio chegou quando ainda estava na escola secundária
em 1964. E nunca mais parou de pintar e faz com imenso prazer e talento. Foi
no ano de 1969 quando obteve o primeiro prémio no Salão de Artes
Plásticas para Novos em Curitiba (Paraná) e realizou sua primeira
exposição individual que começou a construir a admirável
trajectória artística que a cada passo ou a cada obra se supera.
Vera Sabino é incansável artista do fazer e do saber ilhéu,
acrescenta sempre, desvenda, reinventa, decifra enigmas entrelaçando
na linguagem plástica e na apurada técnica, por ela inventada,
um mosaico de cores, de tons quentes, de intensa luminosidade, da sensualidade
das formas que transparecem no universo mítico de Vera onde tudo cabe
e é permitido, no ténue fio que conduz e ao mesmo tempo separa
o real do irreal.
Na comunhão do inconsciente com elementos da paisagem, o microcosmo
ilhéu em movimento se revela em metáforas visuais e preciosa
policromia. Dessa maneira, sua obra apresenta-se como uma surpreendente narrativa
visual. Passeia pelas tradições e pela memória colectiva,
revisita mitos, na sua inquietude e rebeldia quebra padrões estabelecidos
e deixa fluir a riqueza do imaginário insular.
Ao fazer de sua arte instrumento de resgate e preservação do
património cultural imaterial, transpondo para seus quadros símbolos,
rituais, religiosidade, canoas, tarrafas, rendas, tramóias labirínticas,
laelias purpuratas, bromélias, crenças, mar, serpente, mulher,
bruxas, rompe a visão estática do passado e vai ao encontro do
nosso passado sem ser passadista, como bem escreveu o escritor Mário
de Andrade em carta a Paulo Duarte: ”Entre ser passado e ser passadista
há uma grande diferença, diz ele. Goethe era passado mas não
passadista. Passadista é o ser que faz papel de carro de boi numa estrada
de asfalto.” (in: Veloso e Madeira 1999:115)
Adepta do realismo fantástico, faz uma relevante leitura visual do etnógrafo
Franklin Cascaes e das estórias publicadas na sua obra O Fantástico
na Ilha de Santa Catarina, da qual resultou a série bruxólica,
em homenagem a Cascaes, com imagens pintadas dos contos: Balanço Bruxólico,
Bruxas roubam lancha baleeira de um pescador, Congresso Bruxólico, Eleição
Bruxólica e Mulheres bruxas atacam cavalos. Na coreografia embruxada,
a paisagem imagística é cenário e ocupa o espaço
circundante, enquanto as mulheres-bruxas estão no primeiro plano, como é característico
da presença permanente da figura feminina em sua obra.
Vera Sabino percorre os caminhos, descortina a magia, e entre vivências
e convivências busca inspiração no jeito de ser e estar
na Ilha, nas lendas, rezas, fadário, sensações e sem qualquer
inibição retrata a Mulher. Mulheres se multiplicam, metamorfose,
imagem sensual, insólita reinvenção, sortilégios
de sua arte. Medusas adornadas em suas cabeças com peixes, seres marinhos,
cobras, pássaros, flores, numa composição encantada; rendeiras
de olhos pretos profundos, cheios de sensualidade e vívidos como o olhar
da gaivota a espiar rotas; sereias emergem, antropomorfas tentadoras, no meio
do mar cavado, cristais de ondas, cabeleira de espumas, corpo rendado de escamas
em contraste com o rosário hagiográfico de suas madonas, santas
e via-sacras, por último, bruxas da Ilha, feiticeiras, nuas ou vestidas,
corpos de puro desejo, seios fartos, boca carnuda, vermelha, imagem exuberante.
Mulher e Bruxa. Bruxa-mulher.
“
Bruxas disfarçadas de pitonisa ilhéia”, sugere o poeta
Lindolfo Bell no ensaio Vera Sabino: Triunfo da Transfiguração
(2004:p.6).Imagens femininas, bruxólicas, emprestadas da mitologia como
Circe, a feiticeira da Ilha de Eéia, de longas tranças, a tecer
a tela da imortalidade.
Entre o real e o imaginário não há fronteiras. Apenas,
tangem o insondável e se cruzam no tempo. O tempo da Ilha, o tempo de
Vera Sabino e de Semy Braga, vozes libertas, asas aladas de seu imaginário – alimento
da alma – traduzidos na sinfonia de palavras e imagens de sua arte. O
universo de Semy Braga e Vera Sabino revelam a herança de uma partida,
de uma chegada e jamais de um regresso.
Ilhas das minhas paixões-vivas
Guardadas pelo oceano
Lélia Pereira da Silva Nunes
23 de março de 2007
Aniversário de Florianópolis
Ilha de Santa Catarina

"De incansável
dedicação,a obra de Vera Sabino se acresce. Se desdobra.Entre
mito e erudito a artista se supera, obra a obra.
As mulheres se multiplicam, metamorfose, transfiguras, mas sempre a
mesma imagem de exuberância contida e insólita reinvenção.
Em selvas incomuns, onde coabitam,plasticamente, fragmentos do Inconsciente
(o invisível) e elementos da paisagem visível, táctil.
Na certeza e contemplação convivem hibiscos, samambaias,
musgos, Xaxins,bromélias, cactáceas de cores surpreendentes,
folhagens docoração na contraluz, para olhar e sentir.
A pintura de Vera Sabino se faz contribuição decisiva
nas artes plásticas contemporâneas.Espelho vivo de um universo
em construção,livre para reencontrar o lado mais oculto
da própria liberdade."
Lindolf Bell - poeta e crítico de arte
Membro da AICA e ABCA

"Vera Sabino é antes de tudo
uma artista da linha, a linha é seu meio de revelar o mundo,
e ao fazê-lo repete a tradição sufi, afasta um dos
véus da realidade ao mesmo tempo que a recobre com outro véu,
tantos quantos são a alternância luz e sombra na criação
do mundo.Tudo se resume na linha, ela é o fio condutor.A que
nos conduz? Ao mito revisitado.Realizando arte bruxólica,Vera
Sabino conduz através de metáforas visuais a inquietude
dos mitos ilhéus, o desvelar de um conhecimento perdido que é
o reflexo de nossos medos mais profundos, proposta iniciática
de uma união criador-criatura através da natureza"
Walter
de Queiroz Guerreiro

"Os seres de Vera Sabino tem grande compromisso
com a natureza.É evidente que, como artista, a natureza nos quadros
de Vera é vista por um prisma que nós, os mortais comuns
não percebemos.Seus pássaros, peixes, borboletas e serpentes
confabulam com os personagens e emprestam a eles a visão que,talvez,
lhes seja peculiar.Disto resulta um mundo mágico que seria muito
grato ao Felini,por exemplo, em sua incansável busca do irreal
dentro da realidade.Não há nenhum espaço gratuito
nos quadros de Vera Sabino.Partindo de um desenho onde a sensualidade
do traço jamais se vulgariza, trabalha centímetro por
centímetro, até que toda a superfície esteja plena.Então
vemos que sua criatividade foge a todas as regras de forma e de cor,
numa tal liberdade de concepção que um peixe pode ser
um adereço e a cabeleira compor-se de flores insólitas."
Harry
Laus -escritor e crítico de arte
Membro da ABCA

Paisagens da janela,
a alegoria de Vera
Pintora
desde a adolescência,
Vera dedica-se inteiramente à arte, vive da e na arte em sua
plenitude. Seu repertório iconográfico é facilmente
reconhecível, já que desde há muito tempo existem
constantes em seu trabalho. Nas obras que compõem a ilustração
do poema, percebemos que a artista não estabelece limites entre
o onírico e a realidade: é o inconsciente da artista que
aflora, ela pinta a cena oriunda de sua fantástica interior.
Pinta o sonho do pescador, uma vez que o pescador é um sonhador.
Este conteúdo onírico apresenta-se numa organização
diferente da realidade da superfície, como num efervescente mundo
imaginário, quase mítico, povoado de seres marinhos pertencentes
ao cotidiano dos pescadores locais. Desta forma, cada uma das pinturas
pode ser entendida como um micro-mundo, onde os elementos apresentam-se
leves, soltos, flutuando, em constante movimento. Há uma permanente
sensação de agitação e vibração,
como se a pintura pudesse transformar-se, alterando a posição
das partes que a compõem. Esta composição inusitada,
essencialmente feminina, na qual os elementos apresentam-se deslocados
de seus locais habituais, juntamente com cromatismo intensamente explorado
e associado à temática, cria a tensão presente
na obra, atraindo a atenção do leitor como um chamamento
à sua fruição.
Vera
serve-se de apurada técnica
pictórica, por ela mesma inventada e aperfeiçoada, que
inclui vários e meticulosos procedimentos. Por meio de tal processo
de pintura, elabora figuras, volumes, luz e sombras para criar as representações,
alcançando um resultado bem particular, que lembra a textura
visual do pontilhismo. Suas pinturas mostram primeiros planos tomados
por mulheres e peixes, de modo que as paisagens configuram-se como cenários
preenchendo o espaço circundante. São paisagens muitas
vezes vistas de suas janelas e que uma vez guardadas na memória,
retornam às pinturas. As mulheres e os peixes, já tão
peculiares em seu trabalho, são elementos que sobressaem pela
forma como a artista os representa, de maneira bem mais sofisticada
e com algum sentido de abstração. As obras mostram seqüência
e unidade, cuja visualização é enfatizada pela
mesma rede de pesca que se estende continuamente pelas pinturas.
Nas
pinturas de Vera a cor é
exaustivamente explorada, prevalecendo alguma intensificação
dos tons quentes e vibrantes. As nuances resultantes do efeito que simula
o pontilhado, criam texturas visuais precisas, e os contrastes marcados
atribuem sensações às formas, como de leveza, dureza
e maciez. O colorido dos seres marinhos mostra uma luminosidade acentuada
pelo reflexo do mar, e que, algumas vezes, quando eles já estão
na superfície da água, se esvai transformando-se numa
sombra distante. A artista dá atenção muito especial
aos detalhes e miudezas, ricos em colorido, que formam padrões
e texturas, como os cabelos, as escamas, os fios, as pontas, os tramados,
as conchas e os espinhos, os quais através da repetição,
criam um ritmo especial. Outro detalhe de marcada expressividade é
o tratamento dispensado aos olhos dos peixes: parecem mirar o infinito,
na espreita de um destino que sabem certamente acontecerá.
As
figuras femininas, alegorias bem elaboradas no estilo pessoal de
Vera, foco principal das obras, apresentam-se
constituídas de formas arredondadas, cabeças inclinadas
em relação ao pescoço, num olhar vago, distante
e romântico; mulheres dotadas de cabeleiras fartas e esvoaçantes,
olhos profundos e detalhados que miram o próprio interior, num
olhar lânguido, esquivo e distante, olhar de vidro, desvivido.
Parecem mesmo aflorar do inconsciente, como ‘anima’, ou
mulher arquetípica.
Sonhadoras, sonham com os mistérios do mar?
Com o regresso de seu pescador?
Sugerem Medusas vaidosas, em suas cabeças adornadas com peixes-arco,
e outros seres marinhos que as tangem, peixes na garganta, ou que se
entrelaçam em seus cabelos transformando-se em motivos ornamentais,
vestem-se de estrelas do mar.
Espelham cabelos do tempo?
Euforia de tempos?
Seriam estas mulheres as representações do feminino do
imaginário do pescador?
Ou a eterna onipresença da feminilidade manifestada através
da natureza?
Canto da bruxa?
Toda
a metáfora visual de sua
obra parece estar presente na pintura que nos mostra o barco alado,
a canoa pássara. Com suas robustas e suaves asas, a barca representa
a exploração do mundo inconsciente, da viagem interna
da artista e de cada um de nós. Portador da simbologia da viagem,
da travessia para um outro mundo, para o além-mar, o barco, assim
como os habitantes do mar tratados de forma onírica, bem nos
parecem figuras emprestadas da mitologia.
Limo inicial?
A
obra de arte sempre deixa ver a concepção
de mundo e a atitude do criador frente à realidade. No caso de
Vera e Semy, além de nos contar a respeito do contexto cultural
açoriano ilhéu, as obras nos remetem, ao imaginário
português, o qual é sobremaneira povoado por imagens do
além: d’além-mar, do eterno convite à viagem,
simultaneamente da partida e do regresso, testemunhando nossa herança
comum lusitana. Obras plenas tanto de simbolismos quanto de qualidades
e soluções plásticas são como paisagens
imagísticas de um colorísmo vívido, oriundas dos
fecundos universos expressivos dos artistas. Universos estes, tão
particulares, quanto verdadeiros, pois que se mostram impassíveis
em face às imposições dos modismos em arte.
Viagens através do espelho da retina?
A
possibilidade de leitura de uma obra de arte é inesgotável, e a que aqui ensaiamos não
escapa à generalização. O poema deu origem à
pintura, que na seqüência originou um comentário,
provocando uma quase tautologia: a passagem da palavra escrita para
a imagem visual e desta novamente para o texto discursivo. Assim, aventuramo-nos
ao encontro de alguns aspectos significativos, buscando a tessitura
e a sintonia existentes entre o poema e as pinturas. Esperamos que esta
leitura crítica constitua-se numa forma de abrir caminho para
que o leitor acesse a obra por meios próprios, num favorecimento
à criação de outros percursos, de novas narrativas
e olhares, nesta carta sem roteiro.
Dora Maria
Dutra Bay
Membro da AICA/ABCA
Ilha de Santa Catarina, 2003

Uma pintora das flores
“Eu aprendi pela cadência,
tirando do juízo”
Mestre Vitalino.
Da Espanha do reservado Sánchez Cotán (1561-1637) aos
Países Baixos do pletórico, profuso, minucioso Frank Snyders
(1599-1657), já em fins do século XVI, quando deixavam
os recantos secundários das pinturas, onde desempenhavam o papel
suplementar de retoque cenográfico, para brilhar no primeiro
plano, com exclusividade, os bodegones ou naturezas mortas passariam
a denotar, ao mesmo tempo, o respeito decorativo ao cotidiano e a veneração
crescente pela opulência do mundo vegetal. Não tardariam
os Franz Post da vida a vir copiar nas terras de cá a novidade
dos frutos exóticos.
Afeiçoados pelos herbários, acordes com a botânica,
adaptados ao sentido de prosperidade próprio da burguesia comercial,
que lhes permitia recortar da própria vida um fragmento revelador
da abundância – a mesa com seus pertences e adereços
– e aliando este sentido ao sentido de beleza que os ateliês
flamengos encontraram nos arranjos florais, com aqueles dados empíricos
que eram as suas telas, ouso postular aqui, os pintores que concebiam
as flores em sua despreocupada gratuidade precederam as posteriores
teorias do gosto, as da ”forma viva”, anunciaram um dos
cernes da doutrina estética de Kant, a noção do
desinteresse, e acabaram por prefiguar, em fim, a noção
de arte/jogo, que viria em seguida. Com as naturezas mortas emergem,
assim, dois fatos complementares da sensibilidade cultural: a admissão
da beleza pelo prazer que ela dá e a valoração
do capital como meio de consumo (e ostentação). A suntuosidade
ilusionista dos quadros de Jan Davidsz de Heem (l606-l683) ilustra bem
a circunstância.
O vaso de flores, em seu isolamento na tela, exemplifica a substantiva
expressão feliz, a conveniência, a empolgação
primária, o splendor formae que o espectador contempla esquecendo-se
de si, não importando minimamente que se trate ou não
da epifania de mais um dos transcendentais. O arranjo floral, na pintura
da época aparece qual apoteose do microcosmo: uma rendição,
egrégio vestíbulo, ninho vegetal. Mas, antes de tudo,
qual festa para os olhos. Flores, frutos e legumes: deles se servirá
Arcimboldo em suas montagens transformistas, no momento em que os produtos
da natureza foram capazes de ocupar a posição do próprio
homem, para evocar este último, intranscendentalmente, através
de um puzzle, ou melhor, por um jogo de imagens cruzadas.
As flores, as still lifes da seiscentista portuguesa Josefa de Óbidos
e as de seus assemelhados contribuíram para dotar o gênero
com ingênuos encantos mediante os quais, tons negros, na verdade
tenebrismo de superfície, faziam sobressair, como jóias,
as ilhas de cor. Para enriquecer a galeria dos sublimes, encabeçada
por Heda e Zurbarán, talvez por Kalf (l622-l693) veio Beaugin;
depois veio Chardin, abalizado nas delícias da simplicidade.
Sabe que guarda um tesouro o museu que possuir, ainda que na reserva
técnica, e com seu ar old fashioned, um ramalhete de rosas executado
por Fantin-Latour. Na França pré-modernista Odilon Redon
procura submergir as flores na bruma e num plano de alusões.
Van Gogh, pintor de cadeiras e sapatos, entitativos e perturbadores,
com seus girassóis, plenamente as arremessa para a metafísica,
para o mergulho na alma. Visualmente panteísta e de novo burguês,
o Impressionismo recupera, com a falência dos grandes temas, a
dignidade das flores em buquê.
Na tradição modernista brasileira, o vaso com flores,
ainda que de modo incidental, nos momentos de repouso, diríamos,
compõe uma seqüência energética que vai de
Portinari, Rubem Cassa e Guignard a Glênio Bianchetti, Carlos
Scliar e Márcio Sampaio, passando ademais por Volpi e uma extensa
linhagem de pintores ora muito bons, ora não tão excelentes.
Saboreamos hoje com olhar admirativo e bem humorado o encanto das “flores
cubistas” que Anita Malfatti pintou nos anos 50.
O tema perdura e resiste ao tempo, servindo já aos propósitos
da alegoria, senão aos do símbolo, já aos da pura
forma, da construção, da estrutura, já, por fim,
aos imperativos do lúdico, do instante, da evocação
do infinito.
*
Para
sua exposição no
MASC, a artista Vera Sabino, uma das mais notórias e notáveis
de Santa Catarina, pintou uma série de 12 grandes telas representando
vasos com flores. O resultado é uma exposição reiterativa,
mas antes de tudo uma exposição singular, que surpreende
pela força das imagens.
Vera Sabino maturou a pintura na criação de um mundo figurativo
que entendeu moldar sobre três vertentes temáticas, relevantes
para o seu imaginário e para o de grande parte dos habitantes
de Florianópolis, cujos pais e avós viveram tradições
de muito colorido e tom local. Para não falar em bois de mamão
e outros folguedos populares, pergunto: quem, digo entre os antigos,
não se lembra do mar dourado das laranjas luzindo, à noite,
na festa da Trindade? Em primeiro lugar temos o repertório fabuloso
do substrato açoriano do litoral catarinense, em especial o da
Ilha de Santa Catarina, com suas lendas e tradições. Em
segundo lugar vem o repertório hagiográfico, que faz dela,
Vera, uma verdadeira e própria pintora religiosa. Em ambos os
casos foi necessário adotar uma linguagem narrativa e um objetivo
expressivo Considerando-lhe o processo fabulativo, podemos distinguir
duas etapas seguidas no condicionamento visual de sua experiência
pictórica. De um registro antes solto, anárquico, cuja
característica mais evidente é uma espontaneidade por
assim dizer febricitante, (anos 70) Vera passa a um fazer construtivo
mais controlado. Este, não obstante o rigor da estrutura, conserva
o transbordamento de informações visuais próprio
do trabalho de outros artistas importantes da Ilha, como Eli Heil ou
Ernesto Meyer Filho. A aridez, pois, não faz parte de sua gramática,
mesmo quando se trata de sintetizar.
O marcante maneirismo aparentemente estereotipado, mas verdadeiro manancial
de soluções pontuais, parece apropriado ao teor expressivo
que a situação temática requer. Por último,
o terceiro repertório a considerar, diz respeito a uma espécie
de paisagem evocadora da “ Ilha da Magia” e, por isso, sob
o ponto de vista plástico, pouco dista dos dois conjuntos anteriores.
A imersão nas raízes, reais ou fantasiosas, de qualquer
modo ancorada nos valores culturais/religiosos da terra, onde não
faltam os episódios “bruxólicos”, que o pintor
Meyer Filho também trataria a partir de sua bem humorada poética
erótico-anedótica, traz à pintura de Vera uma força
de resistência, que tem sua relevância em um local que cada
vez mais, e rapidissimamente, mercê do afluxo de artistas cosmopolitas
vindos de grandes centros, perde a ligação com as origens.
Como teoriza a nova doutrina dos patrimônios culturais, preservar
não é agir pensando no passado; é avaliar para
o futuro. Sendo assim, uma das formas legítimas da preservação
pode ser (por que não?) a da criação artística
quando se apoia, obliquamente por certo, porém de modo figadal,
na motivação de base. Variante desse possível método
é o armorialismo, tão forte na arte pernambucana, por
exemplo. Vera, entretanto, não se enquadra entre os armorialistas.
No aprofundamento do vernáculo, ela está atenta a tudo,
absorve o máximo possível; revisita e relê a própria
pintura bizantina, aprendendo com ela a impostação hierática,
além do uso do ouro e o magnificar dos olhares. E nisso nada
tira dos livros, tudo da vivência: não nos esqueçamos
que foi animosa em Florianópolis a emigração dos
gregos, o que deu azo à cidade a que se dedicasse também
à devoção com os ícones.
Um divertículo na temática, e na estética de Vera
Sabino e, para mim o mais aprofundado aspecto de seu trabalho, encontramos
na série de vasos de flores que tem sempre pintado. Em geral,
para que não se deixe de marcar um sentido alegórico-simbólico
dessa série, os vasos se postam frente a uma janela aberta que,
guarnecida ou não de cortina, permite divisarmos, para além
do recorte, a procissão icônica dos elementos a que deseja
aludir: figuras de festas folclóricas, objetos rituais de arraigadas
devoções, rendas do lugar, leves, labirínticas.
Aqui, porém, não falaremos nas implicações
simbológicas das janelas e das cortinas. Há quase sempre
nessas imponentes naturezas mortas o exercício da simetria, que
encerra outros tantos subentendidos simbólicos ou não.
Nelas se instalam solenes cristalizações, pretextos para
malabarismos compositivos feitos de feixes de linhas que demandam os
pontos cardeais e, sobretudo, a ocasião de brincar, na maior
seriedade do mundo, com o mundo da cor.
Agora sim, após a cursividade do improviso, o ascético
domínio, ainda que não a contenção total.
Doma de temperamento para a conquista da integridade. Em nível
de poética, passagem do expressionismo para atitude cerebralista.
Há portanto, duas Veras Sabino. Uma, a primeira, encarna a caminhante:
aquela que percorre aflitamente, e fraseológicamente, os caminhos
fabuladores de diversas sagas; que produz pintura desinibida, expositiva,
paroquial, nativista e que além disto se agrega à história
da arte, pintura cujo excesso leva ao barroco, ou ao superlativo bizantino.
E a artista entretém-se em lidar com a superabundância
naïve, que não poupa as recrudescências da linguagem
e se compraz com a compaixão que se expressa pelos sentimentos
congelados dos atores, com a exaltação pela qual os gestos
se multiplicam ao sabor do entrechoque de linhas e contornos cheios
de ambívios, da fragmentação espacial, da ambigüidade
das direções. Dessa vez uma Vera apolínea pelo
excesso de dionisismo, pois é sabido que a tensão máxima
gera o reativo.
Outra, a segunda, é a Vera que serenou-se, que refreia e refina
as sensações visuais, pintora que se deixa estar e que
não quer-se ilustradora nem da revoada das feiticeiras, nem da
paixão dos santos, a Vera a quem não interessa a busca
e o acúmulo, a Vera que ao invés de procurar, encontra.
A Vera dos quadros de flores. Autora de uma pintura em que o artístico
e o belo acabam, ( de novo) se tocando. Vera, senhora do desnecessário:
dionisíaca, dessa outra vez, a poder de se deixar orientar pelo
apolíneo.
Se o sentimento romântico da natureza foi a fonte da pintura da
paisagem, já que, apartando-se, a natureza se transforma em desejo,
em promessa, a motivação básica da pintura de flores,
por sua vez, se acha no sentimento do íntimo, da simpatia: o
desejo de compartilhamento, em esfera doméstica, que nos permite
uma posição insular e, com ela, a fruição
do nosso isolamento. Ela representa o poder ter a natureza, com segurança,
ao alcance da mão. E Vera, porque esta é sua natureza,
dá-lhe um aspecto devocional.
Não é de estranhar-se, então, que as flores da
artista desterrense, com os requintes de iluminura e a imperativa frontalidade,
ao contrário da maioria das representações florais
na história da arte, pendam para a permanência e não
para o fluxo. A ordem flutuante dos dias que correm legitima esse tipo
de compensadora aspiração. E aqui, de novo, encontramos
nova sintonia com a estética da construção. Pois
não disse Valéry que devemos exprimir na oposição
ao “próprio destino do mortal” ? E não disse
que devemos criar, “em suma, a solidez e a duração”?
Embora, no trabalho, seja Vera um dos artistas mais rápidos que
conheço, suas naturezas mortas denegam a pressa, postam-se como
num tempo prolongado, fixo como o tempo próprio dos mitos e não
como o do tempo processual da história. A representação
das flores auxiliam-nos, de modo exemplar, em nosso exame de delimitação
do mundo. As flores constituem uma totalidade visível. Pela concentração
do foco, a situação de incerteza e de instabilidade que
rege a relação sujeito-objeto, e a fragmentação,
tendem a ceder lugar à unidade. A pintura de flores permite viver,
com certa naturalidade, aquela delimitação cujo “princípio
constitutivo”, de acordo com Simmel, “não é
uma idéia ou uma essência espiritual, mas antes, um vivido
estético, o sentimento de uma visão realizada em si, percebida
como unidade auto-suficiente e ao mesmo tempo entrelaçada com
alguma coisa mais vasta”. O interesse pelas flores não
está descontextualizado : Florianópolis e os arredores
abrigaram alguns dos mais famosos orquidários do mundo.
Vera retoma a representação, ou melhor, a apresentação
do universo floral com tanta dignidade, com tamanha e alumbrante calma
e segurança, que se torna esse episódio de sua arte, entre
os mais, o mais depurado e íntegro. Nele os vasos coroados de
flores (onde sobressaem o branco dos lírios e o vermelho das
campânulas) afetam a concentração dos relevos, o
requinte dos emblemas, a solenidade das jóias heráldicas,
o inconsútil das tapeçarias. Nem predomina a natureza,
nem prevalece o homem; ao invés disso, vigora o encontro desses
dois polos, de que nos fala a estética construtiva.
A natureza morta, que já foi em idos tempos uma especialização,
e no Brasil, em sua época, a glória de Pedro Alexandrino,
agora se transforma em escolha, escolha que se destina aos momentos
mais íntimos e mais altos.
Não é difícil notar nesses vasos com flores de
Vera Sabino certa composição arquitetônica. Eles
se articulam como indestrutíveis catedrais. Mas também
há neles leveza, como a das baladas; e rimam como sonetos, e
se matizam como mosaicos preciosos. A seriedade que os envolve nos toca
como se fosse alegria, que prestes se exalta com ajuda das minúcias
da elaboração, com as particularidades miniaturísticas.
E os arranjos adquirem a semelhança de tiaras de noiva, de custódias
ou, para aludir à figura representada em uma das pinturas da
série, da coroa do Divino Espírito Santo.
Que exprimem essas flores suntuosas, emblemáticas? Otimismo e
aderência ao mundo? Prazer de viver (ainda) em uma ilha que já
foi quase paradisíaca? Uma estética do fragmento, visível
no apego aos pormenores? Ou apenas a prestidigitação incomum
da cor, a mais inventiva que possamos desejar, sobretudo se sabemos,
como é o caso, que a pintora manipula apenas quatro tubos básicos
de tintas , afora o do branco? De onde vai ela tirar o despotismo desses
“batizados” vermelhões, a variedade desses verdes-cana
que se alternam com o malaquita das egretes vegetais vigorosamente eretas,
a riqueza desses púrpuras sustentados no timbre mais intenso;
aonde vai buscar o diapasão desses rosas virgínios, e
os metálicos, ambarinos e desusados laranjas, para não
falarmos naquela gama acrobática de azuis, de muitas profundidades
e de todas as temperaturas? Além disso é preciso lembrar
a matéria pictórica, que molda a qualidade palpável
da superfície, façanha tão rara da pintura, mas
que se mostra gorda, boa, abastada, transparente, cheia de viço,
e impressiona ao ritmo de insinuações tácteis,
ao sabor de impressões sensórias, e cria superfícies
ventiladas, porejadas, orvalhadas, deslizantes ou crespas conforme a
conveniência. Tudo com destreza de causar inveja! Vera sabe bem
que se a pintura não for bem feita não sobra nada. Então
há que dotá-la daquele imponderável fator que desperta
(ou não desperta) o interesse não apenas de nossos olhos,
mas de toda a nossa sensibilidade; daquele encanto sem o qual toda obra
de arte será uma equação vazia. A pintura é
uma arte ingrata, porque alcança fascinar, ou não; porque
depende da densidade do fazer, de um domínio de expressão
poética que não deve atingir os adeptos de alguma seita,
mas a audiência interessada na , ou capaz de ser “tocada”
pela obra de arte, capaz de captar sinais. E se oscilando entre o realismo
e o decorativismo, percorre perigosamente caminhos trilhados, fica sempre
mais difícil para ela manter-nos suspensos no laço do
encanto, que é o que deve fazer.
Se Chikamatsu, citado por Octavio Paz, tinha razão quando disse
que “ a arte vive nas tênues fronteiras que separam o real
do irreal “ então o artista não tem que nos comprovar
nada; pode isentar-se de qualquer compromisso com a demonstração.
Na materialidade da obra de arte, o encanto age como toque que serve
para separar o talento da mediocridade, a eloquência do mutismo
e, já crismado na língua inglesa com a palavra “dither”
(cf. Harold Spead) o toque acende a luz onde havia turvação
e afia a lâmina para que nos cortemos. Porque, afinal, a experiência
da arte é um risco. A natureza desse toque é enigmática
e o é mais ainda sua gênese. Como se pode explicá-lo
a priori ? Quem o pode transmitir ? De onde tirou alguém destreza
para fazê-lo? Pelo menos podemos, a título de hipótese,
convir que na arte ocidental, há uma certa relação
entre encanto e beleza. Desta relação, porém, devemos
afirmar apenas que o primeiro se põe como posição
per quam da segunda, que esta só realmente esplende e toca, fazendo
da opacidade translucidez, se com ele estiver carregada: o poder do
encanto é a pilha da beleza.
Dizem que o pintor quanto menos disser, melhor. Se a obrigação
apenas o incumbe de manter-nos presas do encanto, e o poupa de preocupar-se
com demonstrações, o que sobra é algo que podemos
aproximar da beleza. Mas não é menos certo que mais de
um século de repúdio oficial ao belo como categoria estética
da arte varreu esta noção para baixo do tapete. Sabemos,
porém, que ela, roubada que foi pela comunicação
de massa, que a estabelece como regra, impõe-se a todo instante,
em toda parte. Pode dar-se o caso de que a beleza constitua uma armadilha,
tanto para o sujeito quanto para o intérprete, mas se o é,
tem força para sê-lo: responde a um impulso cheio de poder.
Sabemos também que a beleza da arte não é a beleza
da vida e só na medida em que a esquecemos conseguimos compreendê-la.
De qualquer modo, o objeto da arte, tal como o da carícia, implica
em uma questão de pele. Em arte, o que vemos não tem a
essência do que vemos. Após lembrar que a palavra autor
vem de auctor, que em latim significava “aquele que aumenta”,
Ortega Y Gasset nos diz que “o poeta aumenta o mundo, agregando
ao real, que está aí por si mesmo, um continente irreal.”
Por isso Vera Sabino, quando pinta flores, não parte do objeto;
vai de encontro ao objeto. E esse objeto, dessa vez, já não
se engasta na euforia de um burguês que se afirma, como em outros
dois momentos da história da pintura. O novo sentido das flores
na arte pode estar relacionado com as doenças da alma, trazidas
ao cotidiano do homem por certo efeito da sociedade tecnológica,
que o torna solitário no meio da multidão.
Kant ou Schelling, precedendo Wilde, ao conceber o segundo a arte como
regra da natureza, e o primeiro, ao afirmar que “a natureza é
bela quando tem a aparência da arte”, ambos e mais o inglês
que os seguiu, e disse que “a vida imita a arte” , intuíram
que a visão do artista nos condiciona para um novo olhar sobre
os cenários do real. Vera exemplifica tal circunstância,
contraditória na aparência. Suas flores se investem de
uma natureza necessária. Integram um sistema de articulações
indispensáveis, quando a poética se esconde, se recolhe,
se desmecaniza para o pleno alcance de uma realidade rebelde à
análise, que se dá como esconderijo do ato e consagração
da presença. Na ausência. Não é a flor que
interessa, mas o que Vera acrescenta a ela; não só de
forma como de fervor, e de prazer. Isso é normal, sendo a função
da arte não uma atividade inteligível (destinada ao entendimento)
mas um fazer compreensível (destinado à compreensão).
“A beleza ganha valor só sob uma perspectiva distante”,
escreveu Mukarovski, repetindo o dito de F. X. Salda.
“Ceci n’est pas une pipe”. Quando o cachimbo ali estava
para desmentir, na linha do entendimento, esta informação
dadaísta, ninguém poderia desconsiderá-la, se a
tomasse na linha da compreensão. Um fato artístico está
em jogo. Monet, e sobretudo Cézanne, que ajudaram a reformular
os estatutos estético-poéticos da pintura, tinham para
sempre ferido a validade da representação. Assim, o primeiro
fartou-se de pintar nenúfares disseminando-os em um espaço
pictórico decomposto, multivalente, pelo menos quanto ao efeito
ótico e o outro passou anos e anos a desconstruir e reconstruir
maçãs, seu mais belo pretexto. Do impressionismo pode-se
dizer que sua fortuna crítica não cessou de crescer. O
mercado o atesta, quando negocia por dezenas de milhões de dólares
alguns dos quadros que o marcaram. Não deixa de impressionar-nos
o fato de que entre as pinturas mais caras vendidas em leilões
estejam, na atualidade, as “representações”
de flores. Pode o mundo da arte ser um, e ser outro o do mercado; contudo
este último reflete, pelo menos em parte, algo que se passa na
fronteira da sensibilidade. E a disposição para a beleza
faz parte de nossa tessitura sensível, cujos pensamentos “concretos
e corpulentos” (Vico) não dispensam uma determinada espécie
de perfeição, ainda que a regra vigente da estética,
a língua normal, a recuse. Aliás, de modo oportuno asseverou
recentemente Teixeira Coelho que a busca do belo " faz parte da
estrutura cultural do Ocidente”.
Levando em conta que a visualidade padrão de hoje afastou a beleza
da arte, assumir redondamente o belo, nos dias que correm, tem algo
de inusitado. A arte, porém, pertence ao reino do inabitual.
Como ensinava Vico, a poesia (a arte) se define como a faculdade “que
altera e contrafaz”. Com bastante audácia Vera Sabino se
utiliza da beleza para transgredir o padrão, o estatuto que não
a deseja. E ao apoiar-se na violação intencional da norma,
não retroage, cria neologismos. Como, em recaídas, criou
Jim Dine, amador de flores depois da aventura Pop. Walter Benjamin quando
disse que “a verdade é a morte da intenção”
sopesava outro ângulo da questão para reforçar a
idéia da vocação violadora da arte. Mas, não
obstante exista o belo terrível – Dostoiewski que o diga
– não é preciso recorrer à “terribilidade”,
talvez a forma extrema do novo, para que se consume a transgressão:
basta algo tênue, colocado em hora certa. Invada-se o mundo da
moda, confronte-se a pedra de toque da propaganda, do anúncio;
tragam o belo de novo, se isto for julgado oportuno, para o lugar em
que pode ser mais fecundo.
Aqui se abre de novo o assunto fechado da representação.
Não para dizer que ela está ainda viva, pois que não
está, mas para dizer que muito do que passa por representação
não o é, já não é, ou ainda não
é. Houve tempo em que o cervantino pintor, nas páginas
do Quixote, com medo de que duvidassem do que viam, colocava ao lado
de seu quadro os dizeres: “isto é um galo”.
Flores. Sem dúvida. Flores, porém, que não apreciamos
como flores; que apreciamos como pintura. A grande Georgia O”Keeffe,
pintora do vegetal, mestra das fusões de cores, da sensualidade
sutil e da sensibilidade arejada pelas vastidões, não
nos deixa enganar.
Nem é preciso abrir inexplorados horizontes; tampouco dar “lições
de abismo”. Não é necessário, vistas as coisas
por outro lado, abandonar o êxito comercial, se ele existe. Bastaria
tentar entender, sem caso pensado, por que ele existe. Não é
necessário exigir reiteradas e sempre mais amplas aventuras de
concepção, ou processos operativos que se vislumbrem cada
vez mais imprevistos. Grandes nomes da pintura são reiterativos:
Inimá de Paula, Scliar, Reinaldo da Fonseca; o homem dos ex-votos,
Antonio Maia e esse Wellington Virgulino, com cuja sintaxe plástica
Vera Sabino tanto tem a ver. O importante é que, sem detrimento
de certa coerência, que há de firmar o “estilo”,
cada quadro surja como acontecimento novo, o que não é
fácil de realizar-se com pigmentos, linhas, ilusões de
espaços e uma superfície limitada. As instalações,
diga-se de passagem, têm muito mais recursos.
Já se foi o tempo da ilha da magia. Discutir o açorianismo
hoje é exercício acadêmico sobre um conteúdo
em desagregação, ou insistência de festeiros saudosistas.
Discutir pintura talvez ainda valha a pena, mormente se ela contém
a qualidade bastante para nos atingir com sua carga de universal linguagem.
Houve dia em que expor as cinzas de suas pinturas carbonizadas teve
para o artista motivo de ser. Talvez seja hoje preferível apostar
naquilo que o artista ainda pode realizar, e esperar que algo de perturbador
suscite o seu exercício, o seu fazer, a sua construção.
Penso que Vera Sabino está destinada a enormes painéis,
coisas de metros de comprimento, que serão exibidos em edifícios
públicos ou igrejas. Vera tem muito do artesão finimedieval,
quando não existia a arte (art proper) porque o conceito categorial
ainda não fora declarado. Só havia o desejo de trabalhar
sempre e cada vez melhor. Vejo-a pintando uma Santa Ceia, de dramáticas
proporções. Personagem de sua arte, Vera coleciona bromélias,
planta jardins, e cuida deles, e confessa-se capaz de atravessar oceanos,
desafiando fiscais com uma mudinha de planta no bolso ou na sacola.
Vejo-a pintando imenso campo coberto de flores, que será colocado
em uma aeroporto para a simples fruição do deleite; para
saturar com beleza, com adequação expressiva, com plenitude
ou melhor, como diria Nietzsche, com a expressão de “um
equilíbrio perpendicular infalível” a mediocridade
de apressados viajantes que, se souberem aproveitar bem a pausa da espera,
poderão deixar que seu conhecimento vá colher “para
além da inquietação e da fadiga do discurso, o
sossego...de seu ato completo...” (Walter Brugger). Porque na
pintura desses quadros Vera Sabino, a meu juízo, realizou vitoriosamente
a organização da sua Kunstwollen, de modo definitivo diria
eu que é uma pintora das flores. No Brasil, uma das mais completas.
Afinal, ela aprendeu pela cadência, tirando do juízo ...
João Evangelista de Andrade
Filho
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