












































Uma pintora das flores
"Eu aprendi pela cadência, tirando do juízo"
Mestre Vitalino
Da Espanha do reservado Sánchez Cotán (1561 -1637)
aos Países Baixos do pletórico, profuso, minucioso
Frank Snyders (1599-1657), já em fins do século XVI,
quando deixavam os recantos secundários das pinturas, onde
desempenhavam o papel suplementar de retoque cenográfico,
para brilhar no primeiro plano, com exclusividade, os bodegones
ou naturezas mortas passariam a denotar, ao mesmo tempo, o respeito
decorativo ao cotidiano e a veneração crescente pela
opulência do mundo vegetal. Não tardariam os Franz
Post da vida a vir copiar nas terras de cá a novidade dos
frutos exóticos.
Afeiçoados pêlos herbários, acordes com a botânica,
adaptados ao sentido de prosperidade próprio da burguesia
comercial, que lhes permitia recortar da própria vida um
fragmento revelador da abundância-a mesa com seus pertences
e adereços-e aliando este sentido ao sentido de beleza que
os ateliês flamengos encontraram nos arranjos florais, com
aqueles dados empíricos que eram as suas telas, ouso postular
aqui, os pintores que concebiam as flores em sua despreocupada
gratuidade precederam as posteriores teorias do gosto, as da "forma
viva", anunciaram um dos cernes da doutrina estética
de Kant, a noção do desinteresse, e acabaram por
prefigurar, em fim, a noção de arte/jogo, que viria
em seguida. Com as naturezas mortas emergem, assim, dois fatos
complementares da sensibilidade cultural: a admissão da
beleza pelo prazer que ela dá e a valoração
do capital como meio de consumo (e ostentação). A
suntuosidade ilusionista dos quadros de Jan Davidsz de Heem (1606-1683)
ilustra bem a circunstância.
O vaso de flores, em seu isolamento na tela, exemplifica a substantiva
expressão feliz, a conveniência, a empolgação
primária, o splendor formae que o espectador contempla esquecendo-se
de si, não importando minimamente que se trate ou não
da epifania de mais um dos transcendentais. O arranjo floral, na
pintura da época aparece qual apoteose do microcosmo: uma
rendição, egrégio vestíbulo, ninho
vegetal. Mas, antes de tudo, qual festa para os olhos. Flores,
frutos e legumes: deles se servirá Arcimboldo em suas montagens
transformistas, no momento em que os produtos da natureza foram
capazes de ocupar a posição do próprio homem,
para evocar este último, intranscendentalmente, através
de um puzzle, ou melhor, por um jogo de imagens cruzadas.
As flores, as still lifes da seiscentista portuguesa Josefa de Óbidos
e as de seus assemelhados contribuíram para dotar o gênero
com ingênuos encantos mediante os quais, tons negros, na
verdade tenebrismo de superfície, faziam sobressair, como
jóias, as ilhas de cor. Para enriquecer a galeria dos sublimes,
encabeçada por Heda e Zurbarán, talvez por Kalf (1622-1693)
veio Beaugin; depois veio Chardin, abalizado nas delícias
da simplicidade. Sabe que guarda um tesouro o museu que possuir,
ainda que na reserva técnica, e com seu ar old
fashioned,
um ramalhete de rosas executado por Fantin-Latour. Na França
pré-modernista Odilon Redon procura submergir as flores
na bruma e num plano de alusões. Van Gogh, pintor de cadeiras
e sapatos, entitativos e perturbadores, com seus girassóis,
plenamente as arremessa para a metafísica, para o mergulho
na alma. Visualmente panteísta e de novo burguês,
o Impressionismo recupera, com a falência dos grandes temas,
a dignidade das flores em buquê.
Na tradição modernista brasileira, o vaso com flores,
ainda que de modo incidental, nos momentos de repouso, diríamos,
compõe uma sequência energética que vai de
Portinari, Rubem Cassa e Guignard a Glênio Bianchetti, Carlos
Scliar e Márcio Sampaio, passando ademais por Volpi e uma
extensa linhagem de pintores ora muito bons, ora não tão
excelentes. Saboreamos hoje com olhar admirativo e bem humorado
o encanto das "flores cubistas" que Anita Malfatti
pintou nos anos 50.
O tema perdura e resiste ao tempo, servindo já aos propósitos
da alegoria, senão aos do símbolo, já aos
da pura forma, da construção, da estrutura, já,
por fim, aos imperativos do lúdico, do instante, da evocação
do infinito.

Para sua exposição no MASC, a artista Vera Sabino,
uma das mais notórias e notáveis de Santa Catarina,
pintou uma série de 12 grandes telas representando vasos
com flores. O resultado é uma exposição reiterativa,
mas antes de tudo uma exposição singular, que surpreende
pela força das imagens.
Vera Sabino maturou a pintura na criação de um mundo
figurativo que entendeu moldar sobre três vertentes temáticas,
relevantes para o seu imaginário e para o de grande parte
dos habitantes de Florianópolis, cujos pais e avós
viveram tradições de muito colorido e tom local.
Para não falar em bois de mamão e outros folguedos
populares, pergunto: quem, digo entre os antigos, não se
lembra do mar dourado das laranjas luzindo, à noite, na
festa da Trindade? Em primeiro lugar temos o repertório
fabuloso do substrato açoriano do litoral catarinense, em
especial o da Ilha de Santa Catarina, com suas lendas e tradições.
Em segundo lugar vem o repertório hagiográfico, que
faz dela, Vera, uma verdadeira e própria pintora religiosa.
Em ambos os casos foi necessário adotar uma linguagem narrativa
e um objetivo expressivo Considerando-lhe o processo fabulativo,
podemos distinguir duas etapas seguidas no condicionamento visual
de sua experiência pictórica. De um registro antes
solto, anárquico, cuja característica mais evidente é uma
espontaneidade por assim dizer febricitante, (anos 70) Vera passa
a um fazer construtivo mais controlado. Este, não obstante
o rigor da estrutura, conserva o transbordamento de informações
visuais próprio do trabalho de outros artistas importantes
da Ilha, como Eli Heil ou Ernesto Meyer Filho. A aridez, pois,
não faz parte de sua gramática, mesmo quando
se trata de sintetizar.
O marcante maneirismo aparentemente estereotipado, mas verdadeiro
manancial de soluções pontuais, parece apropriado
ao teor expressivo que a situação temática
requer. Por último, o terceiro repertório a considerar,
diz respeito a uma espécie de paisagem evocadora da " Ilha
da Magia" e, por isso, sob o ponto de vista plástico,
pouco dista dos dois conjuntos anteriores.
A imersão nas raízes, reais ou fantasiosas, de qualquer
modo ancorada nos valores culturais/ religiosos da terra, onde
não faltam os episódios "bruxólicos",
que o pintor Meyer Filho também trataria a partir de sua
bem humorada poética erótico-anedótica, traz à pintura
de Vera uma força de resistência, que tem sua relevância
em um local que cada vez mais, e rapidissimamente, mercê do
afluxo de artistas cosmopolitas vindos de grandes centros, perde
a ligação com as origens. Como teoriza a nova doutrina
dos patrimônios culturais, preservar não é agir
pensando no passado; é avaliar para o futuro. Sendo assim,
uma das formas legítimas da preservação pode
ser (por que não?) a da criação artística
quando se apóia, obliquamente por certo, porém de
modo figadal, na motivação de base. Variante desse
possível método é o armorialismo, tão
forte na arte pernambucana, por exemplo. Vera, entretanto, não
se enquadra entre os armorialistas. No aprofundamento do vernáculo,
ela está atenta a tudo, absorve o máximo possível;
revisita e relê a própria pintura bizantina, aprendendo
com ela a impostação hierática, além
do uso do ouro e o magnificar dos olhares. E nisso nada tira dos
livros, tudo da vivência: não nos esqueçamos
que foi animosa em Florianópolis a emigração
dos gregos, o que deu azo à cidade a que se dedicasse também à devoção
com os ícones.
Um divertículo na temática, e na estética
de Vera Sabino e, para mim o mais aprofundado aspecto de seu trabalho,
encontramos na série de vasos de flores que tem sempre pintado.
Em geral, para que não se deixe de marcar um sentido alegórico-simbólico
dessa série, os vasos se postam frente a uma janela aberta
que, guarnecida ou não de cortina, permite divisarmos, para
além do recorte, a procissão icônica dos elementos
a que deseja aludir: figuras de festas folclóricas, objetos
rituais de arraigadas devoções, rendas do lugar,
leves, labirínticas. Aqui, porém, não falaremos
nas implicações simbológicas das janelas e
das cortinas. Há quase sempre nessas imponentes naturezas
mortas o exercício da simetria, que encerra outros tantos
subentendidos simbólicos ou não. Nelas se instalam
solenes cristalizações, pretextos para malabarismos
compositivos feitos de feixes de linhas que demandam os pontos
cardeais e, sobretudo, a ocasião de brincar, na maior
seriedade do mundo, com o mundo da cor.
Agora sim, após a cursividade do improviso, o ascético
domínio, ainda que não a contenção
total. Doma de temperamento para a conquista da integridade. Em
nível de poética, passagem do expressionismo
para atitude cerebralista.
Há portanto, duas Veras Sabino. Uma, a primeira, encarna
a caminhante: aquela que percorre aflitamente, e fraseológicamente,
os caminhos fabuladores de diversas sagas; que produz pintura desinibida,
expositiva, paroquial, nativista e que além disto se agrega à história
da arte, pintura cujo excesso leva ao barroco, ou ao superlativo
bizantino. E a artista entretém-se em lidar com a superabundância
naïve, que não poupa as recrudescências da linguagem
e se compraz com a compaixão que se expressa pêlos
sentimentos congelados dos atores, com a exaltação
pela qual os gestos se multiplicam ao sabor do entrechoque de linhas
e contornos cheios de ambívios, da fragmentação
espacial, da ambiguidade das direções. Dessa vez
uma Vera apolínea pelo excesso de dionisismo, pois é sabido
que a tensão máxima gera o reativo.
Outra, a segunda, é a Vera que serenou-se, que refreia e
refina as sensações visuais, pintora que se deixa
estar e que não quer-se ilustradora nem da revoada das feiticeiras,
nem da paixão dos santos, a Vera a quem não interessa
a busca e o acúmulo, a Vera que ao invés de procurar,
encontra. A Vera dos quadros de flores. Autora de uma pintura em
que o artístico e o belo acabam, ( de novo) se tocando.
Vera, senhora do desnecessário: dionisíaca, dessa
outra vez, a poder de se deixar orientar pelo apolíneo.
Se o sentimento romântico da natureza foi a fonte da pintura
da paisagem, já que, apartando-se, a natureza se transforma
em desejo, em promessa, a motivação básica
da pintura de flores, por sua vez, se acha no sentimento do íntimo,
da simpatia: o desejo de compartilhamento, em esfera doméstica,
que nos permite uma posição insular e, com ela, a
fruição do nosso isolamento. Ela representa o poder
ter a natureza, com segurança, ao alcance da mão.
E Vera, porque esta é sua natureza, dá-lhe
um aspecto devocional.
Não é de estranhar-se,
então, que as flores
da artista desterrense, com os requintes de iluminura e a imperativa
frontalidade, ao contrário da maioria das representações
florais na história da arte, pendam para a permanência
e não para o fluxo. A ordem flutuante dos dias que correm
legitima esse tipo de compensadora aspiração. E
aqui, de novo, encontramos nova sintonia com a estética
da construção.
Pois não disse Valéry que devemos exprimir na oposição
ao "próprio destino do mortal" ? E não
disse que devemos criar, "em suma, a solidez e a duração"?
Embora, no trabalho, seja Vera um dos artistas mais rápidos
que conheço, suas naturezas mortas denegam a pressa, postam-se
como num tempo prolongado, fixo como o tempo próprio dos
mitos e não como o do tempo processual da história.
A representação das flores auxiliam-nos, de modo
exemplar, em nosso exame de delimitação do mundo.
As flores constituem uma totalidade visível. Pela concentração
do foco, a situação de incerteza e de instabilidade
que rege a relação sujeito-objeto, e a fragmentação,
tendem a ceder lugar à unidade. A pintura de flores permite
viver, com certa naturalidade, aquela delimitação
cujo "princípio constitutivo", de acordo com
Simmel, "não é uma
idéia ou uma essência espiritual, mas antes, um
vivido estético, o sentimento de uma visão realizada
em si, percebida como unidade auto-suficiente e ao mesmo tempo
entrelaçada
com alguma coisa mais vasta". O interesse pelas flores não
está descontextualizado: Florianópolis e os arredores
abrigaram alguns dos mais famosos orquidários do mundo.
Vera retoma a representação, ou melhor, a apresentação
do universo floral com tanta dignidade, com tamanha e alumbrante
calma e segurança, que se torna esse episódio de
sua arte, entre os mais, o mais depurado e íntegro. Nele
os vasos coroados de flores (onde sobressaem o branco dos lírios
e o vermelho das campânulas) afetam a concentração
dos relevos, o requinte dos emblemas, a solenidade das jóias
heráldicas, o inconsútil das tapeçarias. Nem
predomina a natureza, nem prevalece o homem; ao invés disso,
vigora o encontro desses dois pólos, de que nos fala a estética
construtiva.
A natureza morta, que já foi em idos tempos uma especialização,
e no Brasil, em sua época, a glória de Pedro Alexandrino,
agora se transforma em escolha, escolha que se destina aos momentos
mais íntimos e mais altos.
Não é difícil notar nesses vasos com flores
de Vera Sabino certa composição arquitetônica.
Eles se articulam como indestrutíveis catedrais. Mas também
há neles leveza, como a das baladas; e rimam como sonetos,
e se matizam como mosaicos preciosos. A seriedade que os envolve
nos toca como se fosse alegria, que prestes se exalta com ajuda
das minúcias da elaboração, com as particularidades
miniaturísticas. E os arranjos adquirem a semelhança
de tiaras de noiva, de custódias ou, para aludir à figura
representada em uma das pinturas da série, da coroa do Divino
Espírito Santo.
Que exprimem essas flores suntuosas, emblemáticas? Otimismo
e aderência ao mundo? Prazer de viver (ainda) em uma ilha
que já foi quase paradisíaca? Uma estética
do fragmento, visível no apego aos pormenores? Ou apenas
a prestidigitação incomum da cor, a mais inventiva
que possamos desejar, sobretudo se sabemos, como é o caso,
que a pintora manipula apenas quatro tubos básicos de tintas,
afora o do branco? De onde vai ela tirar o despotismo desses "batizados" vermelhões,
a variedade desses verdes-cana que se alternam com o malaquita
das egretes vegetais vigorosamente eretas, a riqueza desses púrpuras
sustentados no timbre mais intenso; aonde vai buscar o diapasão
desses rosas virgínios, e os metálicos, ambarinos
e desusados laranjas, para não falarmos naquela gama acrobática
de azuis, de muitas profundidades e de todas as temperaturas? Além
disso é preciso lembrar a matéria pictórica,
que molda a qualidade palpável da superfície, façanha
tão rara da pintura, mas que se mostra gorda, boa, abastada,
transparente, cheia de viço, e impressiona ao ritmo de insinuações
tácteis, ao sabor de impressões sensórias,
e cria superfícies ventiladas, porejadas, orvalhadas, deslizantes
ou crespas conforme a conveniência. Tudo com destreza de
causar inveja! Vera sabe bem que se a pintura não for bem
feita não sobra nada. Então há que dotá-la
daquele imponderável fator que desperta (ou não desperta)
o interesse não apenas de nossos olhos, mas de toda a nossa
sensibilidade; daquele encanto sem o qual toda obra de arte será uma
equação vazia. A pintura é uma arte ingrata,
porque alcança fascinar, ou não; porque depende da
densidade do fazer, de um domínio de expressão poética
que não deve atingir os adeptos de alguma seita, mas a audiência
interessada na , ou capaz de ser "tocada" pela obra de
arte, capaz de captar sinais. E se oscilando entre o realismo e
o decorativismo, percorre perigosamente caminhos trilhados, fica
sempre mais difícil para ela manter-nos suspensos no laço
do encanto, que é o que deve fazer.
Se Chikamatsu, citado por Octavio Paz, tinha razão quando
disse que " a arte vive nas tênues fronteiras que separam
o real do irreal" então o artista não tem que
nos comprovar nada; pode isentar-se de qualquer compromisso com
a demonstração. Na materialidade da obra de arte,
o encanto age como toque que serve para separar o talento da mediocridade,
a eloquência do mutismo e, já crismado na língua
inglesa com a palavra "dither" (cf. Harold Spead) o toque
acende a luz onde havia turvação e afia a lâmina
para que nos cortemos. Porque, afinal, a experiência da arte é um
risco. A natureza desse toque é enigmática e o é mais
ainda sua gênese. Como se pode explicá-lo a priori
? Quem o pode transmitir ? De onde tirou alguém destreza
para fazê-lo? Pelo menos podemos, a título de hipótese,
convir que na arte ocidental, há uma certa relação
entre encanto e beleza. Desta relação, porém,
devemos afirmar apenas que o primeiro se põe como posição per quam da
segunda, que esta só realmente esplende e toca,
fazendo da opacidade translucidez, se com ele estiver carregada:
o poder do encanto é a pilha da beleza.
Dizem que o pintor quanto menos disser, melhor. Se a obrigação
apenas o incumbe de manter-nos presas do encanto, e o poupa de
preocupar-se com demonstrações, o que sobra é algo
que podemos aproximar da beleza. Mas não é menos
certo que mais de um século de repúdio oficial ao
belo como categoria estética da arte varreu esta noção
para baixo do tapete. Sabemos, porém, que ela, roubada que
foi pela comunicação de massa, que a estabelece como
regra, impõe-se a todo instante, em toda parte. Pode dar-se
o caso de que a beleza constitua uma armadilha, tanto para o sujeito
quanto para o intérprete, mas se o é, tem força
para sê-lo: responde a um impulso cheio de poder. Sabemos
também que a beleza da arte não é a beleza
da vida e só na medida em que a esquecemos conseguimos compreendê-la.
De qualquer modo, o objeto da arte, tal como o da carícia,
implica em uma questão de pele. Em arte, o que vemos não
tem a essência do que vemos. Após lembrar que a palavra
autor vem de auctor, que em latim significava "aquele que
aumenta", Ortega Y Gasset nos diz que "o poeta aumenta
o mundo, agregando ao real, que está aí por si mesmo,
um continente irreal." Por isso Vera Sabino, quando pinta
flores, não parte do objeto; vai de encontro ao objeto.
E esse objeto, dessa vez, já não se engasta na euforia
de um burguês que se afirma, como em outros dois momentos
da história da pintura. O novo sentido das flores na arte
pode estar relacionado com as doenças da alma, trazidas
ao cotidiano do homem por certo efeito da sociedade tecnológica,
que o torna solitário no meio da multidão.
Kant ou Schelling, precedendo Wilde, ao conceber o segundo a
arte como regra da natureza, e o primeiro, ao afirmar que "a natureza é bela
quando tem a aparência da arte", ambos e mais o inglês
que os seguiu, e disse que "a vida imita a arte" , intuíram
que a visão do artista nos condiciona para um novo olhar
sobre os cenários do real. Vera exemplifica tal circunstância,
contraditória na aparência. Suas flores se investem
de uma natureza necessária. Integram um sistema de articulações
indispensáveis, quando a poética se esconde, se recolhe,
se desmecaniza para o pleno alcance de uma realidade rebelde à análise,
que se dá como esconderijo do ato e consagração
da presença. Na ausência. Não é a flor
que interessa, mas o que Vera acrescenta a ela; não só de
forma como de fervor, e de prazer. Isso é normal, sendo
a função da arte não uma atividade inteligível
(destinada ao entendimento) mas um fazer compreensível (destinado à compreensão). "A
beleza ganha valor só sob uma perspectiva distante",
escreveu Mukarovski, repetindo o dito de F. X. Salda.
"Ceci n'est pas une pipe".
Quando o cachimbo ali estava para desmentir, na linha do entendimento, esta
informação dadaísta, ninguém
poderia desconsiderá-la, se a tomasse na linha da compreensão.
Um fato artístico está em jogo. Monet, e sobretudo Cézanne,
que ajudaram a reformular os estatutos estético-poéticos da pintura,
tinham para sempre ferido a validade da representação. Assim, o
primeiro fartou-se de pintar nenúfares disseminando-os em um espaço
pictórico decomposto, multivalente, pelo menos quanto ao efeito ótico
e o outro passou anos e anos a desconstruir e reconstruir maçãs,
seu mais belo pretexto. Do impressionismo pode-se dizer que sua fortuna crítica
não cessou de crescer. O mercado o atesta, quando negocia por dezenas
de milhões de dólares alguns dos quadros que o marcaram. Não
deixa de impressionar-nos o fato de que entre as pinturas mais caras vendidas
em leilões estejam, na atualidade, as "representações" de
flores. Pode o mundo da arte ser um, e ser outro o do mercado; contudo este último
reflete, pelo menos em parte, algo que se passa na fronteira da sensibilidade.
E a disposição para a beleza faz parte de nossa tessitura sensível,
cujos pensamentos "concretos e corpulentos" (Viço) não
dispensam uma determinada espécie de perfeição, ainda que
a regra vigente da estética, a língua normal, a recuse. Aliás,
de modo oportuno asseverou recentemente Teixeira Coelho que a busca do belo " faz
parte da estrutura cultural do Ocidente".
Levando em conta que a visualidade padrão de hoje afastou a beleza da
arte, assumir redondamente o belo, nos dias que correm, tem algo de inusitado.
A arte, porém, pertence ao reino do inabitual. Como ensinava Viço,
a poesia (a arte) se define como a faculdade "que altera e contrafaz".
Com bastante audácia Vera Sabino se utiliza da beleza para transgredir
o padrão, o estatuto que não a deseja. E ao apoiar-se na violação
intencional da norma, não retroage, cria neologismos. Como, em recaídas,
criou Jim Denis, amador de flores depois da aventura Pop. Walter Benjamin quando
disse que "a verdade é a morte da intenção" sopesava
outro ângulo da questão para reforçar a idéia da
vocação violadora da arte. Mas, não obstante exista o
belo terrível - Dostoiewski que o diga - não é preciso
recorrerá "terribilidade", talvez a forma extrema do novo,
para que se consume a transgressão: basta algo tênue, colocado
em hora certa. Invada-se o mundo da moda, confronte-se a pedra de toque da
propaganda, do anúncio; tragam o belo de novo, se isto for julgado
oportuno, para o lugar em que pode ser mais fecundo.
Aqui se abre de novo o assunto fechado da representação. Não
para dizer que ela está ainda viva, pois que não está,
mas para dizer que muito do que passa por representação não
o é, já não é, ou ainda não é. Houve
tempo em que o cervantino pintor, nas páginas do Quixote, com medo de
que duvidassem do que viam, colocava ao lado de seu quadro os dizeres: "isto é um
galo".
Flores. Sem dúvida. Flores, porém, que não apreciamos
como flores; que apreciamos como pintura. A grande Ceorgia O"Keeffe, pintora
do vegetal, mestra das fusões de cores, da sensualidade sutil e da sensibilidade
arejada pelas vastidões, não nos deixa enganar.
Nem é preciso abrir inexplorados horizontes; tampouco dar "lições
de abismo". Não é necessário, vistas as coisas por
outro lado, abandonar o êxito comercial, se ele existe. Bastaria tentar
entender, sem caso pensado, por que ele existe. Não é necessário
exigir reiteradas e sempre mais amplas aventuras de concepção,
ou processos operativos que se vislumbrem cada vez mais imprevistos. Grandes
nomes da pintura são reiterativos: Inimá de Paula, Scliar, Reinaldo
da Fonseca; o homem dos ex-votos, António Maiaeesse Wellington Virgulino,
com cuja sintaxe plástica Vera Sabino tanto tem a ver. O importante é que,
sem detrimento de certa coerência, que há de firmar o "estilo",
cada quadro surja como acontecimento novo, o que não é fácil
de realizar-se com pigmentos, linhas, ilusões de espaços e uma
superfície limitada. As instalações, diga-se de passagem,
têm muito mais recursos.
Já se foi o tempo da ilha da magia. Discutir o açorianismo hoje é exercício
acadêmico sobre um conteúdo em desagregação, ou
insistência de festeiros saudosistas. Discutir pintura talvez ainda valha
a pena, mormente se ela contém a qualidade bastante para nos atingir
com sua carga de universal linguagem. Houve dia em que expor as cinzas de suas
pinturas carbonizadas teve para o artista motivo de ser. Talvez seja hoje preferível
apostar naquilo que o artista ainda pode realizar, e esperar que algo de perturbador
suscite o seu exercício, o seu fazer, a sua construção.
Penso que Vera Sabino está destinada a enormes
painéis, coisas
de metros de comprimento, que serão exibidos em edifícios
públicos
ou igrejas. Vera tem muito do artesão finimedieval, quando não
existia a arte (art proper) porque o conceito categoria! ainda não
fora declarado. Só havia o desejo de trabalhar sempre e cada vez
melhor. Vejo-a pintando uma Santa Ceia, de dramáticas proporções.
Personagem de sua arte, Vera coleciona bromélias, planta jardins,
e cuida deles, e confessa-se capaz de atravessar oceanos, desafiando
fiscais
com uma mudinha de planta no bolso ou na sacola. Vejo-a pintando imenso
campo coberto de flores, que será colocado em uma aeroporto para
a simples fruição do deleite; para saturar com beleza,
com adequação
expressiva, com plenitude ou melhor, como diria Nietzsche, com a expressão
de "um equilíbrio perpendicular infalível" a
mediocridade de apressados viajantes que, se souberem aproveitar bem
a pausa da espera,
poderão deixar que seu conhecimento vá colher "para
além
da inquietação e da fadiga do discurso, o sossego...de
seu ato completo..." (Walter Brugger). Porque na pintura desses
quadros Vera Sabino, a meu juízo, realizou vitoriosamente a organização
da sua Kunstwollen, de modo definitivo diria eu que é uma pintora
das flores. No Brasil, uma das mais completas. Afinal, ela aprendeu pela
cadência,
tirando do juízo ...
João Evangelista
de Andrade Filho

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