





















O Olhar de Vera Sabino
Olhar
de doçura incomparável a descobrir nuances
de magia e encantos, a recriar na linguagem plástica o real
e adentrar no imaginário insular, no tênue fio que
conduz e ao mesmo tempo separa o real do irreal. Um olhar que vagueia
sem pressa pela paisagem exuberante, repousa no regaço nativo
da mulher rendeira a entrelaçar fios e a tecer vidas, no
pescador a lançar a rede no mar azul de brancas ondas rendilhadas.
Um olhar que se ilumina ante o tremular da bandeira do Divino,
na sincronia do secular ritual, dos códigos e símbolos
a revivificar na Florianópolis do Divino. Um olhar pleno
de religiosidade e fé na evocação do rosário
hagiográfico de suas madonas e santos. Seu olhar cheio de
graça, brinca matreiro no olhar da mulher. Gaivota a espiar
e buscar rotas. Olhar cheio de sensualidade a adivinhar o ondular
do corpo na cumplicidade dos olhares que transparecem na pungência
pictórica. Olhar de muitos tons e cores a dar vida às
formas e figuras resgatadas do imaginário mítico
e fantástico da Ilha de Santa Catarina.
Olhar que aproxima a natureza e o homem, a terra e o mar, o ser
e o estar na Ilha. A sinfonia do encontro da pintura onírica
e lírica...
No mosaico de cores, luzes e formas a afirmação da
sua identidade. No olhar, o surreal da Ilha com suas tradições
e valores da cultura popular açoriana sobrevivente. A façanha
do olhar vincado nas raízes e nos caminhos telúricos
vivos na memória e no germinar da semente profícua,
no perpassar de gerações. Descortina imagens e lugares
de um jeito singular como o sussurro do vento Sul que chega como
um amante no bojo da paixão.
O pincel de Vera, artífice do fazer e do saber, navega livre,
compõe com Arte, refaz rotas, percorre mares e chega impregnado
de sal e maresia junto com a onda a beijar a areia da praia. Vera
Sabino acrescenta sempre. Desvenda a alma da Ilha e da gente. Ao
atravessar o Atlântico, ela redescobre nossas histórias
e geografias, unifica o espaço, apaga o tempo e, então,
regressamos ao ontem que fomos a ao hoje que somos. Ao atravessar
este portal que é o nosso mar circundante e se aproximar
da gente de outras ilhas de lá ou de cá, leva na
bagagem a beleza de sua arte, numa série de dez telas. Uma
exposição que vai surpreender pela força que
imprime a cada imagem moldada na mais pura temática do fascinante
substrato açoriano, presente no litoral catarinense e revelados
no seu notável uni verso cromático. Sua arte encontra
nas tradições de seu povo e sua ancestralidade a
fonte de da sua inspiração. Ancorada nos valores
culturais da terra, do Sul do Brasil, desta Ilha de Santa Catarina,
a criatura, a pintora, a mulher Vera Sabino com dignidade e orgulho
apresenta a sua identidade cultural açoriana de Santa Catarina,
a Décima Ilha. A contribuição da pintura de
Vera Sabino é inconteste e se faz decisiva no panorama da
arte contemporânea catarinense, com reconhecida projeção
nacional.
Agora, é a vez dos açorianos das Ilhas de São
Miguel, Faial, Pico e Terceira conhecerem sua Arte. Imagens tão
suas como os sonhos partilhados e as raízes partidas há mais
de dois séculos. Significados fortes de pertencer ao lugar
de partida e chegada. Para Vera Sabino, de regresso a sua história
de vida e de arte.
A Direção Regional das Comunidades, da Presidência
do Governo Regional dos Açores, ao realizar a Semana Cultural
do Brasil fortalece laços históricos e culturais
que unem os Açores e o Sul do Brasil, fruto de uma mesma
matriz civilizatória e, sobretudo, faz pulsar no mesmo ritmo,
sentimentos de comunidades irmãs, ainda que separadas no
tempo e no espaço.
Florianópolis - Ilha de Santa Catarina
abril de 2004
Lélia Pereira da Silva Nunes
Superintendente da Fundação Cultural de Florianópolis

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